23 janeiro 2006

O alvo da vez da ganância "neo-liberal"

Com muito espanto vi a manchete no Jornal Nacional : Governo criará 11 novas universidades federais. Fazia tempo que o governo federal não dava uma notícia tão boa, natural o meu espanto. Pode-se discutir, claro, se ao invés de abrir novas universidades não seria mais adequado abrir vagas nas já existentes. Mas isso é outro assunto, trata-se de discutir se uma notícia boa poderia ser ótima, ou não.

O que me espantou de fato foi o comentário de alguém, não tive tempo de ver quem, dizer que o modelo das universidades federais é ruim e que ampliá-las é só ampliar o problema! Ruim comparado com o que, cara pálida?! Com as lojinhas de diplomas sem-vergonhas que tem a ousadia de se chamarem "universidades" privadas? Paulo Renato de Souza, ministro (do desmonte) da educação do desgoverno FHC também acha isso, não é à tôa que, quando Lula assumiu, fazia já 10 anos que não havia nenhum aumento de verba para as universidades federais. Há algum tempo vi que o ex-ministro junto com o Mallan estava participando de um cliclo de palestras, acompanhados dos donos de algumas "universidades" particulares. Em perfeita sintonia, com certeza.

O último capítulo desta estória foi a manchete mentirosa/criminosa/revoltante da Folha de São Paulo, de domingo: "Universidade Privada domina o ranking". Só se for da sonegação de impostos, já que é visível o enriquecimento dos donos destas "instituições sem fins lucrativos".

Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, resume bem o caso:

A manchete de ontem, domingo, da Folha de S.Paulo é extremamente reveladora sobre os critérios que norteiam a preparação das primeiras páginas de nossos jornais. Disse a Folha num título de oito colunas: “Universidade Privada domina o ranking”. No antetítulo somos surpreendidos com a informação de que a USP, a maior universidade pública, desceu de 3º para 5º lugar. Meus Deus, o que aconteceu? Então lemos os cinco parágrafos do texto explicativo na primeira página e percebe-se que estamos diante de uma gigantesca não-notícia. O tal ranking é uma ficção, refere-se ao número de alunos. É óbvio que as universidades privadas que abusam do marketing, têm padrões de exigência muito brandos, qualidade mínima e quase não reprovam os matriculados, terão sempre um número maior de alunos. O leitor não é avisado na primeira página do jornal que este não é um ranking qualitativo, o único que importa para a qualificação profissional dos futuros cidadãos brasileiros. A manchete preocupante está na capa do terceiro caderno: “Universidades Privadas aumentam domínio”. E a manchete verdadeira, esta saiu escondida na página interna: “Desempenho das quatro maiores universidades privadas é muito inferior à USP”. É bom lembrar que as universidades privadas são grandes anunciantes de jornais e revistas.

É bom lembrar também, Alberto Dines, que os jornalões de São Paulo são os porta-vozes do neoliberalismo e, por extensão, de seus maiores defensores no Brasil: os tucanos. Já deu para perceber o que nos espera caso um rato vestido de tucano retorne ao poder, especialmente certo senhor fundamentalista cuja filha "trabalha" na Daslu, comprometidíssimo com o que há de pior na elite brasileira.
ATUALIZAÇÃO (25/01/2006):
Em resposta ao que Fortes Scheissmann comentou neste mesmo post:
O problema, Fortes, é que dessa vez não é nem só para vender jornal. É para vender uma idéia errada, e um pedaço do país de brinde.
O roteiro, em 10 passos básicos, sendo seguido pela caterva neo-liberal é:
  1. Governe o país
  2. Faça de tudo para sucatear a universidade pública, enquanto favorece as "universidades" privadas de fundo de quintal que enfiaram uma grana na tua campanha.
  3. Crie um sistema de avaliação que ignore critérios subjetivos de qualidade, assim fica facilitado dizer que as "universidades" particulares são melhores do que realmente são.
  4. Em perdendo as eleições para alguém que, apesar do ProUni que dá uma graninha para as privadas, limita a criação de novos cursos de fundo de quintal e resolve criar 11 novas universidades federais (e portanto, concorrendo com as lojinhas de diplomas de seus amigos), comece a atacar a universidade pública.
  5. Em seu ataque, diga que a universidade pública não presta, que não tem boa estrutura, que está sucateada. Não diga, claro, que o sucateamento e o problema de estrutura é culpa sua e de seus antecessores, amigos dos amigos seus também.
  6. Venda a idéia, com a ajuda de seus amigos donos de jornais, de que a universidade privada é muito melhor que a pública (afinal você não entende como é possível que não seja assim depois de todo o seu esforço por tornar isso verdade).
  7. Ajudado pelos seus amigos que são donos de jornais e revistas, volte ao poder, para concluir o que começou.
  8. Diga que as universidades públicas são uma merda sucateada e sem valor e use isso como argumentação para vendê-las aos seus amigos (muitos dos quais donos de privadas) à preço de banana e financiado pelo BNDES em condições facilitadíssimas, ou seja, o mesmo esquema que você já usou para vender as siderúrgicas, o sistema telefônico, os bancos, etc...
  9. Como isso é capitalismo e no capitalismo as coisas são pagas, ajeite uma maneira de seus amigos te darem uma grana para pagar todos esses favores, seja pondo dinheiro na sua próxima campanha, seja colocando grana na sua ONG chamada, hipoteticamente, Instituto Fernando Henrique Cardoso, para não dar bandeira.
  10. Torça fervorosamente para que não exista justiça, nem Deus, nem inferno, porque senão você tá fodido. Se for assim, pode dormir sossegado que os poderosos te protegem. Afinal eles só se incomodam com "comunas" e o única coisa que temem é o povo, que você ajuda a manter sob controle.

5 comentários:

gnorante disse...

Vi esta notícia na Folha Online ontém e fiquei indignado. Agora só pra complementar o FHC deu uma entrevista ao repórter Jamil Chade e sobre o que a campanha tucana para presidência deve abordar ele disse:

“Minha obsessão é a educação. Nós conseguimos alguns avanços e todas as crianças estão na escola. Mas que escola? Qual a qualidade desse ensino? Como está o salário e treinamento do professor? O PSDB deve se concentrar em alguns desses pontos e os candidatos precisarão ter a capacidade de recolocar esses temas para entusiasmar o povo outra vez.”

Sem comentários.

Acessível apenas para assinantes: http://txt.estado.com.br/editorias/2006/01/23/pol006.html

Scheissmann disse...

as manchetes não passam de jogos de palavras para se aumentar as vendas, perderam o sentido de título da notícia.
sobre paulo renato, nem falo nada, só o que ele fez com e ensino técnico já me deixa inconformado.

Anônimo disse...

o problema, caro amigo, não é o capitalismo; se assim fosse, Cuba seria o Paraíso, e os States o inferno (e nós dois sabemos que não é bem assim, né mesmo?). Segundo vc, nosso sistema cartorial, onde uma máfia de funcionários públicos vampirizam o Estado (e por consequência) a sociedade, seria melhor que uma meritocracia? Ou vc acha mesmo que as vestais públicas NÃO ROUBAM? Depois disto, só falta convidar o coelhino da Páscoa pro Natal. O problema REAL é estabalecer critérios de qualidade REALMENTE fiscalizar as privadas; nada contra as públicas, que são as melhores, mas nem tudo pode ser governo e Estado: qual o problema que vcs comunas têm com a iniciativa privada? Será porque têm medo de competir?
Abraços

Max F. Ribas- Advogado

Chapado disse...

Caro Max,

Nem Cuba, nem os States são o paraíso, nem o contrário. Nenhum lugar na Terra é o paríso. A sua tentativa de simplificar o assunto de maneira maniqueista é duplamente desonesta, uma pela simplificação em sí, outra pela tentativa de passar que este simplismo estaria no nosso discuso e não no seu.

A impressão que eu tenho é que vc simplesmente não leu o texto. O ponto é o seguinte: o governo cria 11 novas universidades públicas - que vc mesmo reconheceu que são as melhores - e a Globo noticia como sendo uma péssima notícia! Por que? Para defender os interesses das faculdades particulares das regiões que serão contempladas. Entendeu agora quem é que tem medo de concorrência?!

Chapado disse...

Ah,
e quem tem que convidar o coelhinho da páscoa para o natal é quem chama de meritocracia uma sociedade em que o poder e as oportunidades são transferidas de pai para filho, assim com também o são a miséria e o desepero na outra extremidade da relação. Ou quem acha que existe mais corrupção na administração pública que na privada...